Meio&Mensagem

Jogador das multidões

Nobru, atleta de Free Fire, fala sobre rotina profissional, fontes de receita, engajamento e comunicação

Bruno Goes, mais conhecido como Nobru, tem 19 anos e é atleta de Free Fire, o game mobile mais popular e mais baixado do mundo nos últimos dois anos. Em 2019, foi campeão mundial defendendo a equipe de e-sports do Corinthians e eleito o melhor jogador do planeta na modalidade. Antes disso, no entanto, em uma rara jornada que mistura a carreira de pro-player com a de streamer (profissional que faz lives jogando), o atleta já colecionava uma legião de seguidores. Hoje tem 9,9 milhões de inscritos em seu canal no Youtube, 6,5 milhões de seguidores no Instagram, 483 mil no Twitter, 647 mil no Tik Tok e mais de 1,5 milhão na plataforma de streaming de games Twitch. Unindo carisma, suas habilidades como comunicador e desempenho esportivo, é como se Nobru fosse ao mesmo tempo Neymar e Galvão Bueno, traçando um paralelo com o mundo do futebol. Com tamanho alcance e engajamento, o atleta não apenas virou uma marca forte, que tem atraído empresas, patrocínios, projetos e novos negócios, como se tornou o mais popular embaixador dos e-sports no Brasil. Ele tem parcerias com Twitch, Ame Digital, Oi e Discord e participou de campanhas com Netflix, Banco Next e Rappi.

Meio & Mensagem — Como você divide a rotina de pró-player com a rotina como streamer?
Nobru — Geralmente as pessoas escolhem entre ser pro-player ou streamer, porque é muito complicado conciliar as duas coisas. Mas é o que eu faço. Treino e disputo competições com o Corinthians e faço as minhas lives. Muitas vezes eu unifico as duas coisas porque muita gente quer ver como funciona a vida de um atleta de e-sports. E daí então eu também faço algumas transmissões dos nossos treinos, por exemplo. Não é uma rotina fácil e no começo, antes do Corinthians, eu já cheguei a ficar em média 15 horas por dia jogando. Com a evolução e o crescimento da minha carreira, essa gestão do tempo, da rotina e da minha imagem também foi evoluindo. Hoje estou mais preparado para tudo isso.

M&M — Você tentou a carreira de jogador de futebol até os 17 anos. O que essa saga te ensinou e que hoje serve para a sua jornada como atleta de e-sports?
Nobru — A diferença é que o futebol profissional é muito reconhecido e o mundo de e-sports ainda não é reconhecido na mesma proporção. Mas os atletas de ambas modalidades tem um dia a dia muito parecido, com horários de treinos e uma grande preparação. No Corinthians, por exemplo, ficamos alojados em um gaming house, como se fosse uma concentração, junto com o todo o time. Eu trouxe muitas coisas do futebol e meu pai me criou com uma mentalidade de atleta dentro e fora do campo. Eu sabia que, mesmo que eu atingisse fama e dinheiro nos campos, não perderia a minha essência e nem seria um jogador burro, que gasta todo o seu dinheiro e estraga a sua carreira.

M&M — Como é a sua relação profissional com o Corinthians? Como você analisa a estrutura e o investimento que o clube tem dado para sua equipe de e-sports?
Nobru — Depois que o Corinthians entrou na minha vida e na vida dos meus companheiros, realmente ficou tudo muito mais profissional. O clube nos reuniu na gaming house, passou a cuidar de nossa preparação em todos os aspectos, até mesmo na parte de alimentação, e nos deu todo o suporte. Além disso, o clube abriu portas que dificilmente seriam abertas sem ele, como o espaço em televisão e outros canais de mídia, por exemplo. Começamos a dar entrevistas, lidar com os meios e fazer outras coisas que vão nos lapidando como atletas. Quando o Corinthians entrou no cenário de e-sports com o Free Fire, e foi campeão mundial, arrecadando mais de US$ 400 mil dólares, despertou os olhares de muitos outros times. Hoje você vê Santos, Cruzeiro, Vasco, Flamengo e vários outros clubes investindo em e-sports.

M&M — Quais são as principais fontes de receita da sua carreira?
Nobru — Hoje em dia é possível monetizar de várias formas o meu trabalho. Além do salário que recebo, como atleta profissional do Corinthians, temos os recursos das plataformas digitais. No Instagram, com o engajamento que consegui atingir, atraímos diversas marcas por meio de parcerias e patrocínios. Com o Youtube, existe a monetização por audiência, doação e super chats (quando um seguidor paga para destacar seus comentários) em lives que alcançam até 100 pessoas simultaneamente. No Twitch, eu também recebo pelas pessoas me assistindo, pelo contrato que tenho com a plataforma, pelas doações e com anúncios. Fora isso, começaram a surgir alguns projetos de marcas e campanhas no caminho. É uma renda muito boa e eu não sei se eu fosse jogador, seria tão bom para receber o que eu recebo hoje.

“Hoje em dia é possível monetizar de várias formas o meu trabalho. As empresas têm reconhecido a importância e o alcance do cenário de e-sports”

M&M — Sua marca já extrapolou o universo do games. Você pretende aproveitar esse engajamento para desenvolver novos projetos e produtos?
Nobru — Sim, com certeza. Antes apenas o meu pai me ajudava com isso, mas agora ele também iniciou uma carreira de streamer. Então montamos uma equipe para cuidar dessas questões. Um desses primeiros trabalhos foi a Copa Nobru, que aconteceu em agosto. A ideia é estar ainda mais presente na vida das pessoas, indo além dos momentos em que estou jogando e elas assistindo. A Copa Nobru foi um jeito de usar meus canais não apenas para falar de mim mesmo, mas também dar espaço pra gente nova poder aparecer. O próximo passo é levar a marca para as pessoas com novos produtos, também de um jeito físico, e não apenas digital.

M&M — No caso da aproximação das empresas, o que uma marca precisa para ser parceira do Nobru?
Nobru — As empresas têm reconhecido cada vez a importância e o alcance do cenário de e-sports, estão vendo que não é apenas um joguinho. Mas a gente ainda tem muito mais para demonstrar. Quando olhamos o engajamento, tanto no Youtube quanto no Instagram, são números surreais. Eu já estou há meses e meses no Youtube e continuo ganhando mais de um milhão de inscritos por mês. O que precisa ter na relação é aquele voto de confiança dos dois lados. A marca entra enxergando os números de inscritos e seguidores, mas aquele é um território novo para a maioria delas. Então é uma via de mão dupla. O pessoal coloca credibilidade na gente e a nossa parte é fazer acontecer e mostrar resultados.

M&M — Como é que você desenvolveu a habilidade de se comunicar nas lives?
Nobru — Já havia pessoas próximas a mim que estavam fazendo lives e dando certo. O grande exemplo é o Cerol, um grande streamer e influenciador nesse cenário. Além de me espelhar nele, eu assistia muitas lives antes de começar as minhas, e vendo os comentários para saber o que pessoal gostava e o que não gostava de cada um dos streamers que eu via. Tinha streamer que era muito grande, mas não dava atenção para o chat, não se comunicava com o seu público. Ou também aqueles que interagiam, mas não tinham uma jogabilidade tão boa. Peguei todas as referências, mas coloquei em cima o meio jeito de ser e de falar, a minha essência. E o pessoal se identificou com a minha facilidade de gerar assuntos aleatórios para falar por horas e horas durante as minhas lives.

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